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16/11/2008
As má-formações e a gestação

Dra. Lígia Beatriz Bonotto

O período gestacional é o mais crítico do desenvolvimento humano. Durante essa época se dá a distribuição genética. O indivíduo é resultado dessa combinação única que pode prosseguir com sucesso ou sucumbir.

Durante o período pré-natal as células com potencialidade para conceber as várias partes do organismo encontram um tempo único para desenvolver os diversos tecidos e órgãos que compõem cada ser. Mesmo guardando o aspecto semelhante com qualquer outro humano, particularidades únicas já são expressadas. Por isso esse período é tão importante.

Várias circunstâncias contribuem a favor ou contra o desenvolvimento do bebê, entre elas, a saúde e bem-estar da mãe. As má-formações humanas ocorrem durante os primeiros meses após a concepção. O maior risco de perda da concepção se dá dos sete dias (um terço das concepções) até 24 semanas após a concepção. Mas com o acelerado desenvolvimento dos cuidados obstétricos e neonatais assistimos à sobrevivência de prematuros cada vez de menor peso e idade gestacional. Dentro da literatura científica existe esta viabilidade após 23-24 semanas pós-concepcional. Nos EUA, em fevereiro de 2007, foi divulgado o nascimento de uma criança com 285g de peso e 21 semanas de idade gestacional, sobrevivente sem seqüelas. No Brasil, o programa Fantástico (Rede Globo) divulgou, também em 2007, a sobrevida de um prematuro com peso ao nascimento em torno de 300g, também sem seqüelas. É uma vitória da neonatologia, mas o que dirão os geneticistas?

Observa-se que os abortos espontâneos, que ocorrem antes da evidência clínica de gravidez, são ocasionados por desordens entre o tamanho da placenta e embrião, degeneração dos tecidos e alta incidência de anormalidades cromossômicas. Segundo estatísticas, metade das fertilizações não se implantam. Em países desenvolvidos há registros de todos os bebês nascidos normais e com má-formação. Isso não ocorre em países em desenvolvimento. No Brasil existe uma dificuldade ética a respeito da coleta de dados que envolve má-formação e abortos, o que dificulta os estudos.

Nós oftalmologistas, que cuidamos especialmente de crianças, estamos preocupados com o aumento de sobrevida de crianças com muito baixo peso e idade gestacional cada vez menor. O avanço da tecnologia ajuda na sobrevivência mas pode aumentar os problemas porque interfere no aborto espontâneo, por exemplo. Casos isolados de vitória em sobrevivência de menores de 500g, sem seqüelas, não indicam que todos os casos serão assim.

É claro que não estamos defendendo que o aborto espontâneo - corrigido por cuidados mais atentos da ciência ou mesmo a sobrevida infantil melhorada na primeira infância por medidas de prevenção e cuidados sanitários básicos - deva retroceder para diminuir os casos de má-formação. O que queremos dizer é que a sociedade está deficiente para atender as necessidades multidisciplinares que estas futuras crianças, jovens e adultos precisarão. A grande maioria das cidades brasileiras não conta com serviço organizado para atender as crianças com baixa visão e com problemas de desenvolvimento neuropsicomotor. Os poucos profissionais que realizam esse trabalho com grande dedicação, na maioria não são devidamente remunerados. Além disso, grande parte dos convênios não contemplam profissionais como psicólogos, terapeutas ocupacionais e terapeutas com formação em baixa visão. Esta é a nossa realidade no consultório particular e na rede do Sistema Único de Saúde.

Fonte: Pediatric Ophthalmology - David Taylor
Human Malformations and Related Anomalies - Stevenson, Hall, Goodman (vols. 1 e 2)
Embriologia Básica - Moore Persaud (5ª edição)

           


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