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26/02/06
Zé Rodix

Zé Rodrix: usando a miopia a seu favor

 

 

Você com certeza já cantou alguns sucessos do tecladista e compositor Zé Rodrix, como “Casa no Campo” e “Sou latino-americano”. Usando a miopia a seu favor, Zé incorporou os óculos à sua incessante criatividade e bom humor

Você pode não conhecer o cidadão carioca José Rodrigues Trindade, mas certamente conhece várias de suas composições, mesmo as que não se acham em lojas de discos. Explicando: além de “Casa no Campo”, “Mestre Jonas”, “Hoje Ainda É Dia de Rock”, “Sou Latino-Americano” ou “Quando Será”, todo mundo já cantarolou algum de seus jingles. Quem não se recorda de “meu coração bate mais alto dentro de um Chevrolet”, “quem disse que não dá? Na Fininvest dá”, “de mulher pra mulher, Marisa”, “todo mundo vira Skol”, além de outros para clientes diversos como a caderneta de poupança Delfin, a Coca-Cola e a Casa das Cuecas. Não é à toa que muitos consideram Zé Rodrix o maior “jingleiro” do Brasil – isso sem falar em seus temas de telenovelas como “O Espigão” (“hoje eu não preciso mais coçar as costas/inventaram o coça-costas eletrônico”) e “A Corrida do Ouro” (“essas pessoas andam sempre correndo atrás de muito dinheiro...”).
E poucos brasileiros participaram de tantos grupos musicais importantes. Zé surgiu (ainda como “José Rodriguez”) integrando o grupo vocal Momento4uatro, que gravou alguns discos e apareceu para o grande público fazendo o coro em “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, no hoje lendário Terceiro Festival da MPB, transmitido pela TV Record em 1967. Dois anos depois passou a assinar José Rodrix (inspirado em Jimi Hendrix) e tornou-se tecladista do Som Imaginário, acompanhando artistas como Milton Nascimento e Gal Costa e fazendo história por si mesmo com sua fusão de MPB, jazz e rock progressivo. Em 1971 saiu do Som Imaginário e, ao lado de Luiz Carlos Sá e Gutenberg Guarabyra, formou o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, ajudando a definir o chamado “rock rural”, ou seja, country-rock à brasileira, gravando dois LPs obrigatórios no gênero.
Em 1973 o agora chamado Zé Rodrix (que durante algum tempo, já no novo milênio, assinaria ainda “Z. Rodrix”) lançou-se em carreira-solo, cujos maiores sucessos mostraram seu lado mais alegre e dançante, como “Soy Latino-Americano”, “Quando Será” e “Xamego da Nêga”, sem falar no início de sua carreira de publicitário e autor de jingles. Nos anos 80, Zé uniu-se ao Joelho de Porco, que deixou de ser banda de rock-humor para abranger todos os estilos de música, e ao lado de Tico Terpins, contrabaixista e compositor do Joelho, fundou a produtora e estúdio Voz do Brasil. No fim da década de 90, Zé voltou a formar o trio com Sá & Guarabyra.
Sua empreitada mais recente são Os Tropeçalistas, grupo formado há pouco tempo com artistas mais jovens porém talentosos, que se identificaram com Zé pela irreverência e ecletismo (“de Cartola a Neil Young, de Roberto Carlos a Moby”, diz o press release do grupo). Zé conheceu esta rapaziada no Clube Caiubi, casa noturna da Pompéia que descobriu e de onde não saiu mais, a ponto de entrar para os Tropeçalistas como tecladista e orientador. O primeiro disco do grupo deve sair até o fim deste ano.
Famoso por sua facilidade de compor melodias e seu timbre de voz característico, Zé Rodrix é também um músico completo. E literalmente desde que nasceu em 1947, filho de mestre-de-banda. Estudou música no Conservatório Musical do Rio de Janeiro e na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, é maestro e arranjador, além de tocar todos os instrumentos de teclado, violão e ocarina. Sempre criativo, multiplicar talentos é com ele mesmo: hoje é também poeta e escritor, com dois romances já publicados. E mantém bom humor e espírito jovem. Um exemplo recente aconteceu quando um futuro integrante dos Tropeçalistas lhe mostrou uma sanfona que alguém havia deixado para trás numa mudança. Zé teve a honra de abrir a sanfona, literalmente fechada por décadas, e todos os presentes repartiram o prazer de Zé ao ver que ela estava em excelente estado, quase perfeitamente afinada; a meia-hora seguinte foi um belo e alegre recital de sanfona de Zé, incluindo trechos de músicas tiradas de uma ou duas revistas que estavam dentro da sanfona, incluindo sucessos de artistas então novos como Cauby Peixoto.
As inúmeras atividades a que se dedica não impediram Zé Rodrix de responder prazeirosamente a esta entrevista – nem mesmo uma pequena cirurgia recém-feita num dos nervos no olho esquerdo. Aqui ele fala sobre sua paixão por óculos e de sua carreira – como diz uma de suas músicas, “se olhar no espelho/um retrato que nunca mentiu”.


Você incorpora óculos à sua imagem pública desde o começo, no grupo Momento4uatro em 1967, até hoje. Você sempre teve problemas de visão?

Sendo míope, não tive outro jeito a não ser usar óculos: minhas fotos de adolescente são uma versão antecipada do Herbert Viana original. Durante uma fase, de 1976 a 1980, usei lentes de contato, mas depois desisti, porque acabei perdendo com isso uma parte importantíssima de minha personalidade. A cada dia que passa minha visão de longe fica melhor: para quem já teve -11.5 em uma vista e -19 na outra, estar hoje com -3.5 em cada uma é uma glória. Mesmo tendo sido excelente cobaia para a operação laser, não a fiz, para não perder a minha excepcional visão de perto, que não piorou nem um pouco.

uma preocupação com escolha de cores e tipos de armações e lentes?

Sempre: quando começaram as boas armações modernas, eu fui dos primeiros a usar. Fui usuário de Armani durante quase 20 anos, e só depois que parei de usar armações grandes e voltei para as pequenas retangulares que mudei de marca. Hoje uso uma de titânio muito leve, com lentes de acrílico.

Quantos pares de óculos você tem ao todo? Com que periodicidade os troca?

Devo ter uns 25. Mas atualmente só uso dois, que são do mesmíssimo modelo, e só troco em situações de emergência. Os Armani estão todos na gaveta...

Qual sua marca preferida, tanto de receituário quanto solar?

Marca preferida, a Giorgio Armani, mas desde que deixei de usar óculos grandes, voltando para os retangulares pequenos, vou atrás do que ficar melhor em mim. Como diz o Tavito, “somos seres de óculos, e sem eles nossa personalidade não está completa”, por isso hoje busco juntar conforto e estética. Não tenho nem óptica nem fornecedor preferidos.

Alguma história engraçada/tragicômica envolvendo óculos?

Quando pequeno vivia com óculos quebrados, e fui daquele menino que tem sempre um esparadrapo enrolado no meio do nariz, porque os óculos quebravam exatamente ali. Hoje, como enxergo muito bem de perto, leio sem óculos, e vivo perdendo as armações no alto da cabeça. Os filhos sempre as acham. Pior é a Julia, minha mulher, que enxerga pior do que eu e só usa os óculos quando precisa fazer um charme de poderosa...

O que inspirou você e Tavito a incluírem o verso "Eu quero a esperança de óculos" em "Casa No Campo"?

A frase é minha; sempre me soou interessante uma esperança tão míope quanto eu, porque é exatamente assim que as esperanças costumam ser. Graças a essa frase a primeira filha de Nelson Motta e Marília Pêra se chama Esperança, mesmo não usando óculos.

Novidades quanto ao trio Sá, Rodrix & Guarabyra?

Estamos continuando nossa carreira com o show Nós Lá Em Casa, que certamente vai se transformar em CD. E agora em agosto eu lanço o segundo volume da Trilogia do Templo, que são romances históricos que venho escrevendo desde 1998. O primeiro se chama Johaben: Diário de Um Construtor do Templo, e esse novo se chama Zorobabel: Reconstruindo o Templo, ambos editados pela Editora Record.

Como vai seu grupo novo, Os Tropeçalistas? Algum outro projeto em vista?

Os Tropeçalistas é apenas um dos projetos do Clube Caiubi de Compositores, do qual sou curador. É um maravilhoso monte de autores e intérpretes que certamente estão definindo os novos rumos da música feita no Brasil excepcional. Até dezembro estará tudo lançado e o público certamente vai adorar.

Fonte: Revista 20/20 Brasil - Ayrton Mugnaini Jr.
Foto: Maria Clara Diniz



           


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