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16/04/06
Tom Zé

Tom Zé - A jornada de um jovem setentão

 

 

Além de ser o tropicalista de maior sucesso e prestígio em nível mundial, o cantor e compositor baiano Tom Zé completa em 2006 setenta anos de juventude, criatividade e bom humor – e se orgulha de fazer parte da “metade da humanidade que usa óculos”

Tom Zé já faria parte da história da música popular brasileira somente como um dos principais compositores do chamado Tropicalismo, movimento da segunda metade dos anos 60 de reciclagem/renovação da MPB ao lado de artistas como seus conterrâneos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa. Seus sucessos como compositor incluem “São Paulo, Meu Amor”, “Se O Caso É Chorar”, “Jeitinho Dela” e “Botaram Tanta Fumaça”. Mas com o tempo Tom Zé se revelou o artista mais fiel à experimentação tropicalista e, ao mesmo tempo, o mais fiel às tradições de sua terra natal – no caso, Irará, no interior baiano. Após anos de ostracismo, Tom Zé foi descoberto pelo compositor escocês-norte-americano David Byrne e se tornou o tropicalista de maior sucesso e prestígio no exterior.

Quando você começou a usar óculos?

Foi em 1976, quando completei 40 anos. Comecei a sentir dores de cabeça ao ler, o oculista mandava usar óculos de meio grau para ler, daí foi aumentando... Os óculos são difíceis de se ajeitar nesse suspensório formado pelo nariz e orelhas que foi aproveitado pela inteligência dos primeiros oculistas... Passei a ler um tipo de literatura diferente, que exigia menos tempo e esforço. Passei a ler mitologia, que tem episódios pequenos e que fazem pensar por muito tempo. Daí criei o hábito de Neusa ler pra mim e eu ler pra ela. Aí fui habituando com os óculos. Há dois anos comecei a trabalhar em música com computador, usando o programa Pro-Tools, porque não dá mais para trabalhar com aqueles gravadores de fita. Aí eu descobri uma coisa muito boa: com estes óculos de várias lentes não tenho mais dor de cabeça, não tenho mais problema nenhum. Os médicos até me perguntam “que bom mistério é esse...” Os óculos possibilitam ao ser humano ler até a beira da morte... Até fico imaginando como será que o ser humano inventou os óculos, metade da humanidade usa óculos, é uma coisa impressionante... De acordo com Pedro Taques e Euclides da Cunha, o caboclo, um dos primeiros tipos mestiços brasileiros e espécie à qual pertenço, é um tipo humano que normalmente não tem problemas de visão.

Você usa óculos no palco?

Só quando preciso mesmo ler a letra... No palco os óculos fazem um reflexo, e lentes anti-reflexo fazem o artista parecer desumano.


Comente sobre sua frase “O nordestino que vem tentar o Sul só pode visitar os seus quando tiver comprado três importantes símbolos da civilização: um rádio de pilha, um relógio de pulso e um par de óculos escuros”, da introdução de sua música “Menina Jesus” (que diz “Só volto lá a passeio/no gozo do meu recreio/só volto lá quando puder/comprar uns óculos escuros”).

No interior da Bahia, naquele tempo, qualquer utensílio industrial era artigo de alto luxo. Os óculos escuros são objeto de deleite, não de primeira necessidade, e o sol não era tão terrível quanto hoje, óculos escuros não eram tão necessários.

E você usa óculos escuros?

Tenho um par de grau, mas não uso sempre. Não gosto de luz forte dentro de casa e saio pouco ao sol. Quando viajo não vou à praia, vou à montanha.

Alguma marca preferida de armações e lentes?

Não... Quando vou ao oculista peço uma coisa barata, que não seja de luxo, mas que não caia no primeiro puxão. Eu sigo o que está mais perto do meu gosto, nunca visto o que a moda está mandando.

Alguma história curiosa ou engraçada envolvendo óculos?

Lembro a do Miguilim, personagem do Graciliano Ramos, que pega os óculos do tio, põe no nariz e enxerga pela primeira vez, é deslumbrante... Todas as fábricas de óculos deveriam comprar essa história.

Boa! Só que me refiro a histórias vividas por você mesmo...

Ah, sim... Nos anos 1940 eu vendia óculos, em Irará não existiam oculistas e os óculos de grau eram vendidos às dúzias, nós íamos botando os óculos no nariz dos clientes até que algum servisse.

Exatamente como os óculos de farmácia de hoje...

Isso mesmo. E em 1960 participei de um programa de televisão chamado Escada Para O Sucesso, da TV Itapuá, levei no bolso um par de óculos escuros, porque, de acordo com o recenseamento feito naquele ano, o Brasil tinha 53% de analfabetos, e na hora de cantar coloquei os óculos como um protesto.

Algum comentário sobre outros artistas que usam óculos?

Um dia Gal Costa cantou de óculos junto com aquele cantor norte-americano... ela tinha de ler o texto em inglês, usou óculos, uma armação pequena, eu achei bonito...

Pode dizer algo sobre seu próximo disco?

Estou procurando um novo tipo de som, estou sempre compondo, como quem está no limite entre o que é música e o que ainda não é...

Você já cantou sobre sua “segunda juventude” aos 50 anos. E como é chegar aos 70?

rindo) Tenho de fazer algo pra comemorar, né? Eu venci todas as dificuldades, todas as deficiências, problemas familiares e pessoais, minha vida é uma jornada mítica de uma pessoa tímida da roça, consegui respeito e sucesso no mundo todo, é uma jornada aventurosa e venturosa...

Fonte: Revista 20/20 por Ayrton Mugnaini Jr.






           


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