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14/6/2007
A música para os olhos de Cartola ![]() Além de gênio da música brasileira, Cartola é conhecido pela sua inesquecível imagem sempre a bordo de óculos escuros. O artista música é a tradução para os ouvidos da imagem e do sonho que um artista enxerga em sua mente enquanto compõe. E Cartola enxergava longe. Enxergava uma poesia singular, mesmo sem ter estudado muito. Enxergava a beleza da vida em um Rio de Janeiro em que era possível ser malandro sem ser criminoso e curtir a boêmia de um morro verde e rosa. E enxergava tudo através das lentes negras de seus óculos escuros. Cartola nasceu Agenor de Oliveira em 11 de outubro de 1908, mas, por um erro do cartório, seu nome virou Angenor de Oliveira. Aos 11 anos, foi morar no morro da Mangueira e fez um monte de bicos, desde muito cedo, para ajudar no sustento da família. Aliás, Cartola só trabalhou com bicos a vida toda – até a música às vezes era uma maneira de arrumar alguns trocados, como quando vendia seus sambas para outras pessoas. Desde os 17 anos, vivendo longe do pai e das irmãs, Cartola logo viu que era no morro onde estava seu amor. Fundou, em 1928, a Estação Primeira de Mangueira, primeira escola de samba do subúrbio carioca que congregava os muitos blocos carnavalescos dali. Lá na Mangueira, Cartola se casou uma vez muito jovem, ficou viúvo, adoeceu, recuperou a saúde e encontrou suas duas parcerias eternas: no amor, com Dona Zica, e na música, com o samba. Foi depois de conhecer Eusébia Silva de Oliveira, a famosa Dona Zica, que Cartola compôs músicas como As rosas não falam, Nós dois e O sol nascerá. Eternizado na voz de intérpretes como Francisco Alves, Nara Leão e Beth Carvalho, Cartola morreu de câncer em 30 de novembro de 1980. O filme Cartola - música para os olhos é o nome que os roteiristas e diretores Lírio Ferreira e Hilton Lacerda escolheram para o filme que mostra a genialidade de Cartola. A obra traça a história do sambista do Brasil com imagens que mesclam depoimentos atuais, imagens de arquivo e entrevistas de Cartola com cenários e recomposições de ambientes em um formato de documentário clássico que nem de longe é entediante. O filme é curioso, faz rir, refletir, cantar e torna a vida e a obra de Angenor de Oliveira uma história bela e real que é parte da cultura brasileira, portanto, parte de cada um de nós. Também mostra como Cartola, homem vaidoso sempre, preocupava-se com sua aparência e tinha os óculos escuros quase como parte de seu corpo. E é com eles no rosto que ficou imortalizada a sua imagem. “Eu pergunto com que óculos ele vai?”* Mas é no último minuto do filme que está a “cerejona” do bolo, pelo menos para quem trabalha com óptica. Os produtores juntaram todos os óculos escuros de Cartola e penduraram em um varal, um ao lado do outro, como se estivessem ali esperando para serem escolhidos por Angenor para compor seu visual. A imagem fica ali, ilustrando a tela enquanto sobem os créditos e são o complemento ideal para sair do cinema com aquela sensação boa de ter conhecido uma história que vale a pena. Ficou com vontade de ver? Cheque a programação dos cinemas da sua cidade. O filme estreou em São Paulo e no Rio de Janeiro no início de abril. *O samba Com que roupa? foi composto por Noel Rosa, mas a VIEW acha que ele não se incomodaria nem um pouco de emprestar essa frase para um texto que falasse de um de seus parceiros de samba. Sorel com Cartola Para o pré-lançamento do filme, a indústria de óculos Sorel, parte do Grupo Tecnol, desenvolveu um modelo de óculos escuros iguais aos que Cartola usava: acetato preto, no modelo clássico que surgiu na década de 50, virou estilo de óculos e hoje é de novo tendência no mundo da moda, o Wayfarer. Os óculos fizeram parte do kit entregue à imprensa e convidados que, além dos óculos, continha uma camiseta. Ambas vinham dentro de uma “caixa de fósforos gigante” para quem quisesse se arriscar a tirar um sambinha dela. Curiosidades tiradas da cartola O apelido Cartola nasceu no canteiro de obra, onde, como pedreiro, usava sempre um chapéu para impedir que o cimento sujasse a sua cabeça. Diz a lenda que Cartola escolheu as cores verde e rosa para a Estação Primeira de Mangueira em homenagem ao seu time do coração, o Fluminense, que usa as cores em tonalidades bem mais sóbrias, grená e verde escuro. Verdade ou não, conseguiu que sua escola de samba tivesse até hoje as cores mais originais e mais singulares do Carnaval carioca Na década de 60, Dona Zica e Cartola tiveram um bar que se tornou o reduto da boemia e do samba carioca, o Zicartola, sediado na Rua da Carioca, centro do Rio. O estabelecimento durou menos de três anos (de 1963 a 1966), talvez por causa da mania de Cartola de deixar os amigos beberem de graça. Quem olha para a imagem de Cartola fica curioso para saber porque seu nariz era tão brilhante e tinha uma coloração diferente do resto da pele do rosto. Esses sinais eram conseqüência de uma doença chamada rosácea, que deixa o tecido hipertrofiado e parecido com uma couve-flor. Posteriormente, Cartola passou por uma cirurgia plástica para retocar sua aparência. Fonte: Texto Cíntia Marcucci - Revista da Óptica
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